“Sabe quando a gente acorda um dia apaixonada por alguém?” Me disse uma amiga. Parei pra pensar, e isso acontece, ou acontecia, muito comigo. De repente tudo aquilo que alguém fez, falou, ganha uma carga afetiva diferente. De repente tudo muda. Vem de forma meio inexplicável, simplesmente a relação ganha outro sentido, faz todo sentido, ou, sentido nenhum. E daí, se prepare para uma montanha russa de sentimentos. Borboletinhas pelo corpo de todas as cores. A imagem que fazia parte do plano de fundo ganha destaque como ícone principal. É vontade louca de estar perto, às vezes só de ver, de saber o que o outro pensa, de querer que seja recíproco. Me desculpe, mas eu sou intensa. Vem junto da euforia o medo, o nervosismo, as expectativas. Delícia quando elas são correspondidas. O problema é: nem sempre as expectativas ganham a resposta desejada. Deve ser por isso que enjôo muito rápido das pessoas, crio muitas expectativas. As pessoas são cansativas, pois nunca são exatamente o que queríamos que fossem. Precisamos então sempre fazer um trabalho de aceitação, de aprender a ceder, ser mais flexíveis. Tornar-se flexível quando se é rígido, dói. Tem que ir dobrando, dobrando, forçando as arestas duras, até ficar mais maleável. É trabalhoso, mas é recompensador. A maioria dos meus grandes amigos, saberão eles agora, já me irritaram ou enjoaram em algum momento. Transformaram-se em grandes amigos porque conseguiram passar dessa fase de enjôo, quebra de expectativas, inicial. São grandes amigos, claro, antes de tudo, porque sintonizam bem comigo. Acho que quanto maior a sintonia, maior a expectativa para que ela aumente.
O que fazer quando se precisa conviver com alguém que destoa de ti em muitos sentidos? Quando é, por exemplo, alguém de sua família: pai, mãe, irmão. Muitas vezes foi tentado um equilíbrio entre essas notas dissonantes, mas que não foi conseguido. Espera-se que as relações familiares sejam harmoniosas, mas pode acontecer de haver um choque de gigantes tão intenso, que seja difícil manter o bom relacionamento. Para piorar, há pessoas que não conseguem se manter ouvintes verdadeiras num diálogo, não estão dispostas a dobrar-se junto com o outro para haver melhor encaixe. O que fazer? Se alguém souber, me diga. Conversar não adiantou, a política de confronto também não. A solução que consigo vislumbrar é anular-se neste encontro. É difícil anular certos comportamentos, eles podem estar ligados estreitamente aos alicerces que constituem o eu. “Até cortar os próprios defeitos é perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” - Clarice Lispector. Acho, no entanto, que às vezes é preciso se matar um pouco para não morrer. Segurar a respiração quando o ambiente é mau cheiroso (embora deixar de respirar seja fatal), enquanto caminha, para logo depois respirar livremente.





