quarta-feira, 25 de abril de 2012

Álvares de Campos - Esta Velha



"Esta velha angústia, Esta angústia que trago há séculos em mim, Transbordou da vasilha, Em lágrimas, em grandes imaginações, Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre, Este quase, Este poder ser que..., Isto. 
Um internado num manicômio é, ao menos, alguém, Eu sou um internado num manicômio sem manicômio. Estou doido a frio, Estou lúcido e louco, Estou alheio a tudo e igual a todos: Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura Porque não são sonhos. Estou assim..."

quarta-feira, 7 de março de 2012

Amamos estranho.

Não aguento mais ver formas de relacionamento amoroso tão esquisitas por aí e por aqui. A forma que se ama nessa sociedade é muito estranha! Entrar em um relacionamento é sinônimo de cobrança e limitação, ao invés de júbilo e liberdade! Não se ama os desejos dos outros, só porque não são todos voltados para si, mas deveriam ser aceitos só porque são desejos do outro, porque são o outro! Todo mundo quer mudar todo mundo, ninguém quer amar. Deveria-se amar a história, mas quer-se apagá-la! Todos querem que a história da vida do amado seja reescrita! Que amor é esse que não aceita a vida?! Isso é o amor?! É ego! É fragilidade! Somos todos frágeis demais e não amamos! Eu não consigo mais achar natural tanta limitação dentro do que se chama amor. Há tantas consequências... Há mentira, há sofrimento. Relaciona-se com imagens falsas que brigamos e esperneamos para que se mantenham como queremos! Isso é muito estranho e é o que acontece em todos os lugares! Como somos pequenos, medrosos, e amamos pouco. Como sofremos em formas de relacionamento duros e desgastados! E ninguém se pergunta se têm que ser assim? Tem que ser assim?! Já se perguntou se dá pra amar diferente? Por que tem que ter tanto sofrimento? Por que tem que ser como é?! Eu quero que isso mude geral, porque não quero que eu mesma caia nisso de novo. Eu não quero amar pouco! Quero amar muito!

Desabafei.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A Perfeição do Banho

Estava agora pouco tomando banho quando me vieram várias idéias. Todo meu ritual atento de banho e pós-banho, com meus vários produtos de higiene e beleza, foram distraídos dessa vez. Comecei a ficar nervosa porque precisava escrever as tais idéias. São danadas, costumam vir nas horas mais impróprias: dirigindo, na hora de dormir, no banho, ... E já agora estou pensando tantas outras coisas que to com medo de perder o que eu pensei em primeiro lugar e deu início a isso. Eu tive idéias. Não gosto do que Deleuze fala sobre “ter idéias”, diz que são momentos raros e para poucos. Acho que a gente tem muitas idéias. Acho que o brasileiro tem muitas idéias. Não tenho idéias geniais, são idéias medíocres, mas são minhas idéias, são uns pensamentos. Como agora: saí do banho e tinha que escrever; o papel tá no meu quarto, em uma gaveta tapada pela cama onde a gringa tá dormindo. Peguei um jornal aqui pela sala mesmo. Peguei o primeiro jornal que vi que tinha mais espaço em branco. Acho que jornais deveriam ter mais espaço em branco, pra gente escrever quando tem essas idéias que não dão tempo de procurar papel. Da mesma forma que jornal, principalmente O Globo, é muito útil pra embrulhar coisa de quebrar e limpar bunda em emergência. Curiosamente, o caderno que eu peguei do jornal se chama “Boa Chance”. A capa tem bastante espaço pra rabiscar, mas acabei escrevendo por cima de tudo.
Pois então. De baixo do chuveiro me lembrei, com um pouco de saudade, de algo que não tinha ainda parado pra pensar: o modo como eu usava o corredor do meu antigo prédio. Onde morei vinte anos. De repente lembrei que quando eu queria ficar sozinha, já que eu não tinha meu próprio quarto, ia deitar no chão do corredor. E isso não era estranho pros meus vizinhos que às vezes passavam enquanto eu estava lá estatelada. Tínhamos certa intimidade, coisa de quem divide os mesmos corredores há anos. Os corredores eram pontos de encontros e paradas, mesmo tendo um playground super amplo. As mães paravam no corredor pra sentar, fumar (não tinha ventilação), e colocar as fofocas em dia. Eu brincava com as outras crianças no corredor, corria com a minha cachorra, e, mais tarde, conversava sobre meninos com as amigas. Fazíamos unha e derramávamos acetona no chão do corredor. A minha marca manchada de acetona está lá até hoje, acho eu. Tanta coisa acontecia naqueles corredores! Coisas até secretas. Secretíssimas! Coisas que eu só conto pro tipo de pessoa que eu pararia pra sentar e conversar no corredor. E outras que não contei a ninguém.
De repente comecei a sentir meu passado tão perfeito, e como perdemos de vista quanta perfeição reside no presente! De repente comecei a sentir tanta exatidão. Foi na hora desse devaneio de exatidão que, depois do banho, passei o creme errado na parte errada do corpo. Logo na hora da intuição-de-perfeição isso me acontece. Mas até o erro entrou na onda da perfeição. Senti que todo o erro, apesar de ser erro, é perfeito. Da mesma forma que o vento forte, com extrema exatidão, derrubou ontem meu quadro da parede, e o quadro caiu exato no chão. Nesse momento, pra mim, tudo o que está fora do lugar está exatamente. Me sinto bem com essa espécie de aceitação (o que não é o mesmo que comodismo, pois se o quadro cai, eu me levanto para colocá-lo no lugar que eu quero que esteja).
O corredor do meu prédio atual não tem o que o outro tinha, no corredor daqui eu só existo mesmo de passagem, sem intimidades com ele. Mas tem outro nível de perfeição, e talvez eu veja nele outros sentidos, do tipo que a gente só vê quando toma banho depois que o tempo passou.

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